sábado, 8 de abril de 2023

E mais uma vez, um ano depois, estou de volta.

Oi, Senhor Ninguém. Como tem passado? Espero que esteja bem. Eu? Ah, bem, é complicado. 

Mas antes de falar sobre como estou, uma observação: engraçado como só venho falar com o senhor quando não tenho com quem falar. Ou, na verdade, não sei se me entenderiam exatamente. Ou até, não sei se existe essa pessoa, que eu me sentiria tão confortável para falar e divagar sobre os mais diversos assuntos, sobre mim ou não. Não sei se sou uma pessoa complexa demais ou não, mas as vezes sinto que não me encaixo muito e que nem todo mundo me entenderia. Será que todo mundo se sente assim também?

Esse ano, fazem quinze anos que venho aqui conversar com o senhor. Quinze anos. Quinze. É uma palavra pequena para os muitos anos que representa, não? Muitos anos. Anos em que passei por diversas transformações, internas e externas, e só tenho a agradecer ao senhor por todos esses anos me lendo e me entendendo — e me ajudando a me entender também.

Pois bem, da última vez em que apareci aqui para conversar com o senhor até hoje, aconteceram muitas coisas. Perdas, sacrifícios, descobertas, superações, aprendizados. Em todos os sentidos, emocionais e físicos. Hoje, eis como estou: sofrida, porém, bem. Engraçado, não é? Mas possível. Irei explicar: comecei a ir no psiquiatra e na terapia — finalmente tenho alguém para conversar sobre tudo, além do senhor. E eu sei que isso é algo muito bom, mas estou em período de adaptação da medicação psicotrópica e eu sequer imaginava o quão difícil é. E acredite, é bastante difícil e exaustivo emocionalmente. As vezes, eu só queria desistir, mas tento pensar que é algo que estou fazendo por um bem maior. Na terapia, é como se tudo o que eu reprimi por todos esses anos estivesse vindo a tona de uma só vez, todos os sentimentos ruins e até os bons também. A minha história, os meus traumas, os meus medos, os meus segredos… tudo o que me faz ser quem eu sou e existir em toda a minha singularidade. É interessante ver certas coisas pela percepção de outra pessoa — que não te conhece bem e mesmo assim, está analisando tudo o que você fala. Também é interessante como consigo entender melhor o que realmente sinto quando coloco para fora. Entender que certas coisas nunca terão solução, certos nós nunca serão desatados e nós precisamos aprender a conviver com eles, do jeito que eles são. É uma mistura complexa de sentimentos e emoções, que me faz querer entender tudo, mas continuar seguindo adiante. Afinal, é o único caminho que nós temos. Ah, também estou fazendo exercícios físicos. Estou fazendo pilates há quase um ano — e como eu já esperava, amando. Também estava precisando, devido ao meu trabalho, que sobrecarrega muito o meu corpo e eu acabo sentindo muitas dores. Finalmente estou tentando fazer mais por mim e acho que isso fez parte do meu amadurecer, saber que preciso cuidar de mim mesma e realmente o fazer, porque já estava no meu limite. Esse ainda é um problema para mim, saber reconhecer o meu próprio limite. Provável tema da minha próxima sessão na terapia. E esses são os aprendizados da vez: acolhimento e limite.

Obrigada por me ler mais uma vez, Senhor Ninguém. O peso no peito diminuiu, o coração já está mais leve.

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